Poetas Independentes

Publicando idéias...realizando sonhos !!!

UMA PALAVRA DE DESPEDIDA, APENAS - Donato Ramos

UMA PALAVRA DE DESPEDIDA,
APENAS!

DEDICO:
A Você

Que:
muitas vezes caminhou comigo, não interessa por quais veredas, de dia ou de noite, saciados, com sede ou com fome não interessa do quê, despertos ou sonolentos.
Que:
cantou ou chorou comigo, na hora da chegada ou do adeus mesmo que, ainda, não fosse o definitivo.
Que:
muito tempo depois ainda se lembrava do meu nome e dos meus feitos.
Que:
como eu conta os anos e sabe que a metade há tempos já passou, que já não tem tempo para lidar com mediocridades, para aplaudir inflados egos e gabolices.
Que:
como eu se inquieta com os invejosos que tentam destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, sorte ou talentos. Gente como eu que não tem mais tempo para projetos megalomaníacos, não participa de longas conferências que estabelecem prazo para o fim da pobreza no mundo, que não discutem mais estatutos de sindicatos e outras associações, procedimentos e regimentos internos.
Que:
como eu ainda acredita que Deus existe e que, humildemente, em silêncio, com Ele conversa cantando!
Que:
enfim, sonhou,
ganhou ou perdeu,
mas sonhou.

(Muita coisa é escrita sempre baseada em muita coisa lida e sabe-se lá escrita por quem)

“O tempo passa,
As estrelas brilham,
Os cadáveres apodrecem”

UM EXTRATO DO QUE LI,
ESCREVI,
VIVI
E ME CONTARAM.

DEVOLVA-ME O MEU AMANHÃ
Prof. Dr. José Wanderley Dias

Tenho direito ao meu amanhã. Não posso garantir-me, sequer, que ele virá, que ele existirá, uma vez que a vida, ainda que durem décadas, é sempre fugaz, e seus passos sempre incertos.
Assim, pode ser que eu veja o sol de amanhã ou venha a sonhar na noite de amanhã. Como pode ser que não. Mas é na esperança de que esse amanhã chegue que eu vivo o dia de hoje. E, esperando, confiando, dando de mim para que o amanhã venha. É sempre doloroso ter-se a certeza de que não haverá amanhã, que hoje será o término, o ponto final. O amanhã é a jornada que chega ao ponto que deveria chegar. E haverá, sempre, pelo menos na imaginação e no anelo, um amanhã.
Assim como se renova cada dia, cada dia tem o seu amanhã: deve tê-lo pelo menos na expectativa, no augúrio, na esperança.
Como a vida humana é coexistencial, o amanhã também o é. Não chegaremos a ele sozinhos, pois não caminhamos rumo a ele sozinhos. Assim, cada um de nós é, de certo ponto, responsável pelo amanhã de nosso próximo, de nosso semelhante.
O pai é responsável pelo amanhã do filho; em reciprocidade depende muito do filho o amanhã do pai. Marido e mulher constroem-se, reciprocamente, o amanhã do companheiro de todos os dias, companheiro também do amanhã, que devem erigir juntos. E, quando não há essa colaboração exigível, pode ela ser reclamada, e pode ser censurado quem a negue.
Daí o poderem surgir protestos, eloquentes uns, mudos outros, mas expressivos todos eles quanto aos impedimentos de cada amanhã. Se apurarmos os ouvidos, escutaremos vozes, murmúrios e até pensamentos dentro dessa faixa de inconformidade com a não participação do amanhã mútuo ou no amanhã individual, mas repetido convivencialmente.
Por exemplo:
Tu me mentiste. E, acreditando em ti, eu me lancei a um amanhã que não consegui, pois o anunciaste como ele não seria. E, hoje, o amanhã não é o que me poderias oferecer e que até me ofereceste, mas que não consegui, pois, a promessa era mentirosa e falsa. E eu tenho direito ao amanhã.
Devolve-o para mim porque, em última análise, foste tu que mo negaste.
Ou poderá ser assim:
Fui eu quem faltou. Eu te disse que o amanhã seria de nós dois. Mas, na realidade, fugi, afastei-me, deixei-te só. E, hoje, quando o amanhã de ontem chegou, tu te vês de mãos e alma vazias. Tens direito ao amanhã que te neguei. É, pois, justo que brades, para que chegue aos meus ouvidos, que devo devolver-te o teu amanhã. Pode, também, dar-se que o protesto, a queixa, as lamentações sejam sociais, de todo um grupo, de toda uma comunidade.
Por exemplo, de toda uma geração, a geração do futuro, a geração do amanhã, quando o amanhã chegar. Então, ela interpelará a geração anterior, - a nossa – já tendo passado, ou em vias de passar, e o fará em termos enérgicos, com a execração do brado pessoal ou com a condenação da História...
Onde está o amanhã que terias a obrigação de transmitir-me, tu geração maldita? Onde o teu espírito de paternidade, de maternidade? Hoje, amanhã para ti e também para mim, quando mo anunciavas, vejo, ao invés do paraíso que me anunciaste e que tinhas a obrigação de erigir, o inferno que preparaste, a bomba humano-existencial que montaste e que explodia, retardada, neste instante, hoje e amanhã ao mesmo tempo na eterna história das gentes. Aqui está o ódio, a desolação, a incompreensão, a desigualdade, ervas daninhas que deixaste crescer e que até regaste, joio que não separaste e com o qual nos vemos forçados a fazer o pão amargo de viver no amanhã acre e pestilento que veio de ti.
Devolve-me o amanhã que me roubaste. O amanhã digno desse nome e dessa esperança, desse sonho e dessa aspiração. Como vemos, o amanhã, para todos e cada um, é direito.
Que não podemos comprometer. Que não podemos jogar no impossível pela janela do hoje desigual, capcioso, egoísta. O amanhã deve ser meta de todos.
Individualmente. Coletivamente. Vivencial e convivencialmente. Sob pena de, não tendo defesa alguma a apresentar, ouvirmos a sentença dura, mas merecida:

CONDENO-TE A DEVOLVERES O MEU AMANHÃ. E, COMO NÃO PODEREMOS FAZER A DEVOLUÇÃO, O JUÍZO DO AMANHÃ SOBRE NÓS SERÁ TERRÍVEL, DESAPIEDADO E SEM QUALQUER RECURSO...

(José Wanderley Dias, advogado, escritor, novelista da grande época do Rádio - antes do surgimento da televisão -, autor de vários livros, faleceu tragicamente juntamente com Neusa - sua deusa eterna - em acidente de carro em Minas Gerais no dia 11 de julho de 1992. Foi mestre e amigo.
Era mineiro de Nova Lima. Superou o número de 10.000 crônicas. Era também jornalista e aposentado da Caixa Econômica.
No dia anterior à sua morte, o jornal Gazeta do Povo de Curitiba, jornal onde mantinha por décadas a sua coluna. À VISTA DO MEU PONTO, publicava a sua última crônica, incrivelmente intitulada QUANDO EU MORRER.
Ao final deste livro, a íntegra dessa sua crônica).

Aos sábados as pessoas são mais sinceras.

“-... e sabe de uma coisa, meu bem...? Eu não tenho
tempo hoje.
Você volta amanhã.
Hoje é sábado.
E é dia de ganhar dinheiro”.

E, HOJE,
É SÁBADO.

A GORDA SEM TEMPO

- Tire logo essa roupa – disse com voz grossa – que eu não tenho tempo pra perder...!
Era gorda “ e tinha um cheiro forte de mulher sem tempo...”. A garganta, senti-a seca, os olhos ardentes, o coração descompassado.
- Vem até aqui, benzinho...
Chamava, e tossia, tossia, tossia e chamava.
Criança ainda, de dezesseis anos. O menino entrou. Cinquenta cruzeiros muito antigos. Pagou para poder sair. Nada no mundo o faria ficar. O medo a tomar conta de todo o seu corpo. Saiu quase correndo, a olha pelos lados.
- Vem cá, seu puto...!
A mulher gorda não se conformava.
- Vem cá, seu frouxo... vem buscar o seu dinheiro... não preciso de esmola!
Uma sepultura imensa, insondável, guardou para sempre o eco dos meus feitos - que feitos? – o prendia ali, gargalhando baixinho para que a terra não tremesse e todos notassem.
Nunca havia uma palavra de despedida, de saudade prévia, antecipada. Ao longo da vida, aquele olhar. A mulher. Ao longo da vida, a mesma cena. A mesma mulher. A mesma gorda sem tempo. O mesmo sábado...

A MULHER SEM TEMPO, OUTRA VEZ...

A moça bonita, de quinhentos cruzeiros, olhava o moço de vinte anos, de forma esquisita, como a estudar seu pensamento, como se soubesse das lembranças que, há pouco, entraram no quarto bonito da mulher bonita.
- Tá olhando o quê, meu bem? Parece que você nunca viu mulher pelada...
Voltou à realidade. Não. Não tinha visto. Nunca! Podia até jurar!
Ela estava nua, nuazinha.
-Bem... vem…tira a roupa...
Começou a se despir, lentamente. Deitou-se. A vergonha de estar ali, ao lado de uma mulher desconhecida, à espera da coragem que não vinha. Ondas de estranha vibração desciam sobre o moço. Uma terrível angústia a sufoca-lo.
- Você ta doente, é?
Não, não estava. Ela não compreenderia. Não foi assim que ele idealizou para essa hora, o momento da libertação da sua alma, da sua sede de fugir das algemas do medo de recordar a cena da mulher gorda dos seus dezesseis anos, tantos anos atrás. Sabe como é, não sabe você?
- Meu bem... sabe...? Eu não tenho muito tempo hoje. Você volta amanhã. Hoje é sábado. – É dia de ganhar dinheiro.
Levantou-se. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Era um pesadelo. Não era verdade... não podia ser verdade. Ela não dizia nada, mas sorria. Com muito custo conseguiu vestir-se. Balbuciou:
- Desculpe...
- Que nada! Isso acontece...
Aquele sorriso no canto da boca muito pintada encravou-se-lhe na alma.
- Não se esqueça de deixar os quinhentos... afinal, eu não tenho culpa...!
Os tropeços se multiplicavam à cada passo e a caminhada se obstruiu na vida a dois.
Os estímulos converteram-se em sarcasmos dentro da própria casa.
Ninguém acreditava em ideais, em luta, em ânimo. Quem ontem os ajudava, hoje desajuda e estorvam. Mãos que atiravam flores de aplausos, fizeram chover farpas de incompreensão. Sozinhos, sim. Entre a expectativa constante e a solidão, viveu sem esposa e sem parentes, suportando a todos os revezes da sorte sozinho. O primeiro impulso, normalmente, era o de reclamar coisas insignificantes que não recebia. Um sorriso, até. Mas coisinhas à-toa confessava – que somadas no dia-a-dia, chegou a época em que havia uma montanha de incertezas, de caminhos obstruídos, de frases de chacota, de incompreensão e até de maldade nas coisas que fazia e das quais esperava receber aplausos. Nada. Absolutamente, nada no decorrer das horas. Um dia, transbordou! Abortou a luz! Liberdade! A liberdade, pelo menos de espírito. Como uma vez foi tentado. Depois do sarcástico sorriso no canto da boca da mulher que não tinha tempo, porque era sábado.

A MESMA RUA

A rua era a mesma. Só o pensamento continuou cada vez mais conturbado. Uma dor aguda que vinha não se sabia de onde, o fazia sofrer muito.
- Ora, isso acontece! Dissera ela.
Tentava convencer a si próprio. Em vão. A noite parecia rir do seu fracasso como homem, homem-macho. Os ônibus passavam e riam; o néon gritava, gritava em cores (quem disse que néon grita e gargalha...?) E gargalhava mensagem publicitária... sentia sede.
Náuseas. Vergonha. Vontade doida de morrer. Não conseguia pensar, nem saber aonde ir. Foi andando. Simplesmente. O frio não o incomodaria mais. Nunca mais. Nunca mais.
- Ora, isso acontece! Mas deixe o quinhentão, porque eu não tenho culpa!

ROSAS E ESPINHOS DE ONTEM

Tudo deveria ter sido escrito, quando, ele não lembra. Naquela época, ainda não creditava que, um dia pudesse se tornar póstumo. Ilusões que carregou infinidades de ilusões pela vida a fora. Hoje, retrospectivamente, vai revivendo lembranças em cada escrito, à procura de alguma coisa que pudesse soçobrar à tanta angústia e incertezas de uma vida praticamente inútil. Buscando na memória pontos importantes, vai encontrando fatos que não são esquecidos facilmente e que pesarosamente, robustecem a opinião de que tudo está falido. A realidade é clara: depois de a tudo tentar esquecer – os vexames, as mal querências, os descasos e tudo o mais - ao final desta estrada poeirenta e fétida, ele chega com o semblante cansado, com sinais de loucura antiga, ninguém ao lado, apenas com frases desconcertantes a bailar, a gargalhar doida e doridamente em sua mente.
Não pense que tudo aconteceu porque o amor acabou. Longe disso, a realidade. O que aconteceu foi que ele, o amor nunca existiu de verdade...! Um casamento equilibrado em bases falsas, cujos alicerces de areia ruíram fragorosamente. A luta a dois nunca existiu. As alegrias e tristezas nunca entendidas jamais foram divididas. As desilusões, com as quais o casal não contava, vieram – como vêm para todos. No compreensível “cipoal da perturbação mental”, como que petrificados, os mais lindos sonhos se foram enovelando, até formar uma massa disforme.
Os sonhos, com essas características, tornaram-se pesadelos que por força de uma sociedade mórbida, teriam de ser suportados de qualquer forma e sob quaisquer aspectos. E o foram. Desmedidamente foram.
Companheiros e parentes que supunha estandartes vivos – da verdade em seus caminhos – renderam-se a atitudes incompreensíveis de silêncio eterno.
Às primeiras dificuldades, ficou só.

ERA SÁBADO

Não pode se esquecer de que era sábado, aquele dia. Curitiba... vinte anos... pra quê...? Não sabia quem foi que lhe ensinou o valor do trabalho e da honestidade, mas, amor, ninguém quis ensinar não!
As coisas vão nascendo, vivendo, sumindo e morrendo, sem que a gente perceba. Tinha uma ternura imensa para distribuir e pouca gente queria. Olha; pensando bem e sendo honesto, ninguém quis. Entre insultos e agravos, a vida foi passando sem que pudesse se segurar no estribo sequer, como nos bondes que via quando já estavam morrendo.

FANTASMAS AMIGOS CANTEM!

O cansaço domina a vontade de viver, a ânsia de amar. Apenas lembranças, sonhos, rotina que a vida nos dá e nos rouba, sem que ao menos esperemos. Citações e frases esparsas bailam em seu cérebro. Não se sabe mais os nomes dos autores, mas, obrigatoriamente entrarão neste escrito feito ao léu. Não sabe mais onde colocar aspas, dando os devidos créditos, dividindo aquilo que for dos outros, mas que moram dentro de sua mente. Afinal, eles foram os autores desta situação. É o que dá ler tudo o que cai em suas mãos. Fica tudo embaralhado. Um autor diz sim, o outro, diz não. Outro, ainda, coloca dúvidas. São os fantasmas dizendo: cante junto, na hora de dizer adeus..., mas a hora de dizer adeus é a mais triste hora... em qualquer língua, em qualquer parte, há a hora triste; na hora de ir embora não é hora de amar, para não sofrer. Um sorriso... mais que um aceno. Um sorriso... mais que um carinho. Um sorriso... mais que uma vida. Da rua, se lembra. Do céu, também. Da data, não se recorda. Uma pétala... duas pétalas... três, quatro, a rosa toda. Uma a uma – das saudades - ficaram ali, chorando tristezas. Uma rosa – inteirinha – desfolhada. As lembranças de romances antigos, deverão ser enterradas aqui, nos espaços de cada linha, nos intervalos de cada palavra. Os fantasmas amigos, autores de livros que dormiram comigo, a última serenata, numa palavra de despedida, apenas:

Eu quero uma estrela
em minha madrugada
e descobrir um quase nada
que perdi quando bebia...
Foram os mortos que levaram minha vida
e transformaram naquilo
que eu não queria.

Levanto a taça,
o olhar embaça
no momento de saudar.
Saúdo a ti, que como eu
na vida só perdeu
em toda mesa de bar.
Ao fim do dia, todo dia,
Em nossa pequenez,
descobrimos que morremos,
descobrimos que queremos
fracassar mais uma vez.

O NUNCA MAIS...

Todo dia, lá longe, o sol nasce e morre outra vez, para provar que o ontem morreu.
Folhas mortas rolando sobre um chão vazio. Suspiros que não se atrevem a falar mais alto do que a razão. Eu disse pra você que era tarde. Você não acreditou. Uma nuvem de bem-querer pousou em nossas vidas e o tempo não existe mais. Hoje resta um pedaço de saudade...Saudade ferida, saudade amarga, amargurada saudade andando por aí, procurando em cada canto a ressonância nunca encontrada. Como folhas ao vento a saudade vai, a saudade volta. Sempre só. Sem ninguém. Apenas, saudade ao deus-dará de cada vento. O “nunca mais” continuará ecoando, repetindo em cada lembrança...Olha para mim, para as horas perdidas, numa solidão sem fim. Olha os cabelos que embranqueceram... olha para a herança que vida me deu: uma lágrima furtiva, na palma da minha mão. Continua lembrando... talvez a única coisa que lhe restava.
Soturnamente os passos ecoam dentro da noite de si mesmo. O relógio da vida parou para sempre o amor e ele está só. Eternamente, só. Na eterna batida das horas, só.
- É madrugada na minha vida, eternamente, quando todos já se foram. Paro e olho: a vida, parece, ficou lá longe, com alguns versos de poetas antigos e amigos que plantaram algumas palavras. Tudo ficou lá longe, com os primeiros sonhos. Sonhos que vieram e que se foram, sem dizer adeus.
Uma vontade doida de tudo, novamente, viver. Paro e olho: nada vejo além dos sonhos. Sigo sem olhar. Ali, a flor. Ali, a lembrança. Ali, a última palavra – adeus.
E eu me fui. Um dia, voltei esperançoso até. Em seu lugar, no mesmo lugar, a flor.
Flor que tive medo de colher e matar o sonho de rever. Você se foi com todos os horizontes.
Sinto-me só, por fim.Os tempos são distantes...meus velhos amigos se foram sem deixar mapas de procurar.
“Eu sou um herói muito antigo e nada mais preciso: nem cores, nem pérolas...” aprendi com Mário Luz. Onde andará quem sabia até como fazer vidro...? O ontem morreu, não sei bem onde. Mas, morreu, deixando os cacos de vidro que machucam no retorno. O amanhã não veio ainda. E eu nem sei se vou ver a madrugada... é a hora da morte. Sob o relógio desperto, as horas caindo... caindo... parece que tudo é etéreo, inexistente, calmo.
A gargalhar em todos os horizontes a luz da lua iluminando folhas mortas que rolam com qualquer vento, como o pensamento cheio de faces escondidas... é quando os anos se reencontram, apertam-se as mãos, como conhecidos chegados. Vejo a sombra que vira meia-sombra e meu tempo é tão curto.
Minha boca de muita sede quer beber alguma estrela que cai, mas não foi para isso que meus olhos de olhar para trás se abriram. Não existe mais tempo para “beber estrelas...” O ontem morreu, coitado! E ninguém sabia. Levou alguma coisa minha. Não muito. Mas levou.
Quero encerrar também assim, com a mesma simplicidade com que sempre vivi e sonhei.
Sonhos curtos, sem muita expressão nem pretensão. Amores quietos, sem grandes embalos, sem altos e baixos, coerentes com a minha razão de viver. Já é hora. Fique com você tudo que tive de anseios mais puros, no meio caminho das minhas andanças. Morreu comigo a outra metade, quando senti que nem havia chegado de todo.
Esquecimento das coisas e das gentes. Seguir um caminho sem horizontes sereia mais humano que seguir um horizonte de mal querência.
Ninguém é tão sacrificado, já disseram, pelo dever, que não possa, de quando em quando, levantar os olhos ou dizer uma frase, em sinal de agradecimento. Mas tudo era encarado como simples obrigação.
Fique comigo mais um pouco e deixe que lhe diga como quase tudo transcorreu.
Os rochedos de sombras foram crescendo à volta, sufocando a todos em casa. Não havia amizade. As crianças, notava-se em seus semblantes, aparentavam saídas das penumbras de um esquecimento mórbido. Aquela mulher nunca aprendeu a sorrir – mas se soubesse, esconderia para si própria – e a abençoar, “ para que a alegria – até em momentos mais difíceis – pudesse seguir avante, incentivando corações e as mãos que operam a expansão da bondade e amizade. ”
Dizem que para toda ferida há remédio adequado. Acontece que, no caso presente, nenhuma ferida ficará. Portanto, o remédio não existe. Apenas, com o correr dos tempos, a liberdade poderá parecer prisão definitiva
Ninguém mais se lembra das canseiras do dia-a-dia. Ninguém mais se lembra das noites indormidas, pensando na doença que poderia vir e que deveriam ser enfrentadas a dois. Ninguém mais se lembra das esperanças que eu tinha e que mataram a pontapés, com desdém, com sarcasmos. Mas todos se lembrarão de que eu parti. De que não suportei a vida que levava em cada minuto de lutas. As noites cheias de desejos morriam no tic-tac do relógio. O s reclamos constantes quando à noite procurava – pelo menos – um abraço, um carinho a mais, uma palavra amiga, foram se tornando lugar-comum e deixaram até de existir. Daí para a frente, daí para a indiferença a tudo e a todos, foi um passo. Se isso não acontecesse, a loucura teria chegado. Ou será que a loucura há muito já havia chegado sem que soubéssemos...?
Sim. A loucura já tinha vindo, sorrateiramente, brincar com a vida dos inconsequentes. O exibicionismo atingiu o auge. A ostentação, um insulto permanente. Cóleras surdas, como centro de uma vida a dois. A vida não desapareceu; acontece que nunca existiu em sua plenitude. Atritos permanentes. O individualismo tomou conta, um vulto formidável. Tentaram encobrir as sombras com os próprios passos e acenos incoerentes. Nada conseguiram. Caminhando pela vida numa completa e perpétua contrariedade e incompreensão lá se foram os dois, caminhando juntos e, ao mesmo tempo, separados. A animosidade foi ponto constante. As portas das almas fechadas para quaisquer incursões.
Ninguém compreendia o valor de um sorriso, o valor de olhar para o céu, para o sol, para as estrelas, ver a flor desabrochar, não ver sombras ao seu redor, sendo portador do sol que ilumina a vida. Criado estava o clima do medo recíproco, em que os monstros do egoísmo e da discórdia, do desespero e da crueldade se desenvolveram, tanto quanto a cultura de várias enfermidades prolifera na podridão. Foi capaz – essa situação – a ruína dos melhores impulsos, desertando-se das próprias responsabilidades porque incentivo não existia. O suor do trabalho secava no corpo, sem que ninguém o sentisse e o bendissesse. O esforço do burilamento espiritual foi perdendo o significado, a vontade de seguir avante foi sendo motivo de chacota. Assim, os dois estacaram na sombra da ignorância que procurou, com a incompreensão constante em cada ato ou fato da vida a dois. Discórdia e tranquilidade, corrigenda e erro, crédito e haver, são frutos de nossa livre escolha, assim como a contingência de ficar sozinhos ou acompanhados.
Quem assim escolheu, assim o terá. Até que o arrependimento não possa mais realizar milagres, até que a emancipação íntima surja para a consciência e se disponha a buscá-la. Mas será tarde demais. Como tarde já é descobrir quem disse tudo isso primeiro e de melhor forma.
Será tarde quando se quiser analisar as ocorrências da vida, quando perceberem que muitas daquelas ocorrências da vida, quando perceberem que muitas daquelas ocorrências que se nos afiguram como bens, resultam males que nos dilapidam a consciência e, porque não dizer, o coração.
.......................
- Bisturi...
Quem queria bisturi...? Pra quê...? Deixa, ora! Por mais que fizesse para esquecer, não conseguia. O passado o fascinava como uma miragem. O crepúsculo, de mansinho, foi chegando... as rosas e os espinhos do ontem, outra vez em seu caminho, em fim de estrada...
- Gaze...
As rosas tão longínquas, salvas dos últimos xingamentos, não consolam a enorme tristeza, oferecendo, apenas, seu pálido encanto de recordar, hoje, na penumbra, na dor.
- Tesoura....
Suas mãos tremem ao tocar nas lembranças recentes ou não. Os espinhos, descuidados, ainda machucam alguma parte sensível que restou da longa caminhada. E eu ria tanto da pieguice daquele livro... como era mesmo...?
- Gaze...
Falavas de espinhos e de um muro... O muro separando-o das angústias dos dias vividos. O muro separou-o dos espinhos. Mas o muro também serviu para separá-lo das rosas. O muro ruiu. Caiu como quem derruba alguma coisa.
- Bisturi... gaze... agulha...
Encostou-se demais, com força demais, para aspirar, outra vez, o perfume de ontem...
- Clorofórmio...
E aspira. Mas as rosas não têm mais perfume. A boca grande da grande noite a devorar tudo, rosas, espinhos, lembranças...
- Mais clorofórmio...
Talvez, nem dê tempo para recordar. Uma dor funda, na alma, no corpo... as rosas choram... os espinhos riem.
- Massagem... o coração...
O tempo que resta é pouco. Esfumaçadas, enevoadas de passado, as lembranças atravessam o muro, silentes, aos gritos de alegria às vezes e vêm sentar-se ao seu lado e ele começa a catalogar. Uma, outra, depois aquela... colocar na sequência é trabalhoso. Qual das lembranças antigas é frito da imaginação...? Imaginação do menino que teve medo da mulher gorda, da mulher magra, de todas as mulheres, da mãe que se foi no início da vida dos filhos que ficaram... quais as lembranças verdadeiras... impossível colocar em ordem, marcar o limite.
- Rápido...gaze... agulha...
Onde deixa aquela lembrança de ser sonho, livros antigos quase decorados, e começa a realidade...? Tenha raízes no cérebro ou no coração, essas lembranças serão revividas. E depressa! Não há mais tempo. Os marcos da sua vida terão formas. Definitivas? Talvez.
Olha para as mãos cansadas em tentar segurar os bons momentos. Em um desejo de repassar tudo outra vez, ver onde as falhas mais graves não sanadas, onde os seus lábios insatisfeitos de beijos culpados, transformaram a fome de amor de amor em blasfêmias ou rimas de amor que jamais existiram...?
- Clorofórmio...
Sempre fora rebelde à toda forma de silêncio, cuja vida sempre foi combatida pelo vento, vento que só veio em direção oposta...parece que foi há um século...queria morrer... o caminhão... o néon dando risada... agora quer viver e reviver lembranças, rosas e espinhos de ontem que machucaram e fizeram sorrir. Mas o tempo inexiste. Elevara-se – se é que se elevara – da mais ínfima camada popular, numa cidade chamada Echaporã. Suas mais antigas recordações eram de um rancho feito de taipa – troncos de madeira roliça, fina, como coqueiros – talvez até fossem coqueiros-cobertos de barro branco, com tabuinhas de madeira de terceira. Uma avó a tagarelar sobre os tempos antigos... uma irmã, cuja história de tão triste escondeu para si própria durante a vida toda... o pai com o coração maior que o bom senso... A mãe já havia partido para outras terras, com outros amores, com o filho menor. Mas não dá para contar em sequência. Arrumar uma a uma as lembranças é impossível. Não saberia distinguir a realidade da lembrança boa. Os horizontes se fundem e o tempo é escasso. Olhando, agora, introspectivamente, vejo-me às voltas com interpretações ainda não respondidas, analisadas às pressas no correr sem fim do tempo que me foi dado. Um dia, tinha de acontecer: parar no meio do caminho, olhar à volta, ver os poucos amigos que ficaram – como que hipnotizados por tantos sonhos a eles transferidos – e, em lágrimas até – dizer-lhe: Por favor, afastem-se de mim. Não se contaminem com o meu falso entusiasmo, com os meus sonhos falhos... eles são bons, mas muito difíceis de realizá-los.
Estou sempre no meio da roda. Todo o mundo, de início, olhando. Alguns, também sonhadores, extasiados ante sonhos tão lindos, enternecem-se e entram, também na roda. Antes que compreendam – de vez – que o sonho é impossível, já outros sonhos levaram-me ao centro de outra roda, com novas cantigas de enternecer, de fazer lembrar, planejar, executar... e perder. Tenho pressa. Tanta, que me esqueço das ansiedades que esparramei. Assim, o foi. Assim, será. Até outro dia. Nesse outro dia estarei só. As pessoas, em torno, sem rostos. Julgado, fui... como...? Não sei. E, talvez, pouca coisa poderia isso representar depois que tudo passou. Desculpe, se corro!
....................
Parece que foi há um século. Queria morrer. O caminhão da publicidade colorida num eterno pisca-pisca no alto dos prédios.... Não podia mais recordar. Definitivamente, chegou ao final. O muro, sim, o muro o separou das rosas e dos espinhos...
- Gaze... tesoura... clorofórmio...
Ele queria tanto descobrir os porquês de tudo.... Nunca havia uma palavra de despedida, de saudade prévia. Mas havia a esperança. Ah! A esperança! Essa, sim, tem vida longa. Comovidamente disse adeus às pedras, aos rostos. Mas levava, sempre, a esperança de, novamente, ser locutor da Rádio Marconi, do alto falante da rodoviária, trabalhar vendendo tecidos na Riachuelo. Como seria bom, outra vez, vender carambolas da Portuguesa, convidar o Zé Ferreira para tomar banho no Burrinho, engraxar sapatos e vender tecidos na Riachuelo... Quanta coisa eu faria, se tempo tivesse. O professor Polimeno teria que me ensinar novamente a matemática, sem uso das máquinas modernas... Máquinas que ele conheceu muito depois... Dá-me, hoje, a impressão – pela falta de rostos amigos e interessados na minha vida – que eu cobri de luto as esperanças dos outros, que eu levei o sofrimento às suas casas e que escrevi coisas que eles não entenderam, que pedi demais e pouco retornei. Dá-me, hoje, a impressão que bati palmas para a morte, que a enalteci, que festejei as desesperanças minhas e as dos outros, com a única intenção de sorrir sofrendo...
Meus escritos – pobres escritos – entremeados de frases soltas de tantos autores que fizeram a minha cabeça – amarrotados papéis que vou passando a limpo, borrando a todos, falavam de muita fé, de muito amor, de ruas floridas do sul do país, de gente sorrindo... Mas detendo-me na corrida louca das minhas últimas horas, chego à conclusão de que fui um triste – muito triste – e que não acreditei nem mesmo naquilo que ia criando e esparramando, brigando com os verbos, os termos loucos, os pronomes fugindo à cada linha do lugar que a língua ensina colocá-los.
“Não me amaldiçoe, nem me apedreje: tenho muito dó de quem não sabe segurar as horas, fazendo delas minhas companheiras...”.
Encontro-me diante do meu caixão: não queria preto. Essa cor me deixa mais enfermo, ainda. Parece que a paz e a tranquilidade vêm vindo por aí. Você também não sente? Sinto isso. Não sei porque. Mas existem ruídos estranhos que chegam, balbuciam, tentam contar alguma coisa e vão embora sem que eu possa distinguir.
“Sou uma igreja fechada pelo tempo” Onde estão as velhas árvores da minha frente...? Ninguém poderá imaginar, adivinhar, quanto tempo estiveram aqui.
Permaneceram como testemunhas mudas da felicidade dos que saíam de branco e preto... da tristeza de quem saía só de preto. A rua, antes tão calma, tornou-se um rio de gente passando. Faça, por favor, uma prece submissa em honra a elas que também se foram. Tinha uma árvore que eu mesmo fiz: bem no alto, destaque para um nome maior – amigo. Aqui, mais em baixo, amigos deles mesmos... lindas flores coloquei ali pela metade da minha árvore, árvore que fiz sozinho para a sala que é minha, só minha. Às vezes, a árvore entorta: as bolas de Natal caem. Eu arrumo, uma ao lado da outra. Depois, coloquei os nomes mais queridos que fui encontrando pela vida afora. Deixei a parte que sustenta o tronco todo, todas as flores, para um nome só: por que não dizer? De quem construiu uma árvore feia: eu.
Parece que estou fazendo uma bagunça tão grande, o pensamento embaralhado que, no final, não vai tempo para passar a limpo uma vida que foi curta, é verdade, mas que - pelo menos – tentou ser útil. Faço uma pausa na corrida sem tréguas do universo imenso que eu mesmo criei. Abundantes visões, ora nítidas de um futuro promissor, ora fluidas de uma materialidade irreal. Os dias correram muito depressa, trazendo a bravura daqueles que suportam calados, tudo aquilo que diz respeito à nossa própria sobrevivência.
Fiquei assim, nesse vai-e-vem de coisas incompreensíveis, como espectador e, muitas vezes, no coração do grande medalhão que ia se formando, como testemunha que ninguém chamava para juramento. Testemunha muito esquisita...! Meu fantasma não sabe para onde ir. As crianças morreram, porque cresceram. Seria hora de voltar? Daí um dia, eu quis voltar. Sem saber para quê, nem porquê. A foto que restou não é mais colorida...? Está em preto e branco, sem mãos de acenar colorido, rostos carmins de beijar? Para que o branco e o preto, logo na hora em que quero voltar...? Quero? O pacto, realmente, nunca existiu. Havia, é verdade, uma ânsia mal formulada que, depois de tudo passado, conseguido e executado, passou a inexistir. Cada um jogado dentro da sua própria vida, abandonados, ao léu da imensidão das ânsias outras, incontidas ânsias de antigamente e que se foram, com todos os gestos mais velhos não sabemos para onde. Caminho, agora, sem muita confiança de uma hora qualquer, acabar chegando. Reluta. Minh’ alma, meu fantasma reluta. As crianças morreram porque cresceram. Seria hora de voltar? As crianças cresceram.... Eu estou do mesmo tamanho, maior por dentro, talvez. Os pensamentos embaralhados. É hora de partir, eu si. Eu vou. Como sempre fui: sem voltar. Só que agora estou voltando. Estarão todos reunidos...? Desconfio que vida os engoliu. Os dias foram sendo somados, um a um, o vento os levando para a grande noite do esquecimento, mas meu fantasma não sabe bem o que é direito fazer. Aqui, havia flores, eu me lembro... Ali, naquela curva da estrada, uma vez, houve despedida simples, daquelas de quem vai e já volta. Aqui, as pétalas... ou já seriam outras que com o tempo também caíram...? São pétalas, talvez de outras ilusões, ao léu, abandonadas e tristes... estão murchando para a vida das cores e das formas... totalmente murchas, a caminho do abandono total, esquecidas da vida que já não mais existe, sem amparo, sem voos de borboletas, sem beijos de beija-flor...
DE MÃOS DADAS CONSTRUIREMOS NOSSO PLANETA

De velho salvaremos alguns gestos autênticos que merecem ser guardados, talvez nossa angústia e um pouco de azul e sol, mas não viveremos mais presos aos silêncios longos.
De mãos dadas enfrentaremos o mundo. E quando me der vontade de regressar (me ajude! Por favor, me ajude a destruir meus momentos antigos-eles ficaram tão velhos, agora), segure minhas mãos com força e confie em mim. Confie inteiramente em mim porque eu preciso de tua confiança. E já não regressarei aos meus fantasmas porque estarei contigo, comprometido com o momento presente, com esse amor que descobrimos de repente em nossos gestos, e era tão fácil e importante “. (Nelson Padrela)”.

Meu fantasma reluta. As crianças morreram porque cresceram. Já disse isso...? Desculpa!
“Aos minutos damos muito pouco valor. Naquilo que seja – ou se nos parece – duradouro, prestamos mais atenção. Um erro que já se tornou comum, tão comum que se não pode separar de nossa própria natureza. Costumamos duvidar das emoções dos primeiros minutos, embora eles não possam constituir a base de toda uma vida. ” Esta história é uma dessas. Comum, mas pouco banal”.
É a história de alguns minutos, mas decisivos... de vidas que se cruzaram, formaram novas vidas e as quais deixaram passar para se perderem no todo-o-sempre. É a história de alguns fracassos e de algumas vitórias. Só. Não se pretende enegrecer, ainda mais, os sonhos sufocados pela vida. O medo constante, os desejos transidos de pavor da hora passando, enterrando soluços nos colos inexistentes das mulheres que a imaginação pintava. O amanhã, uma boca enorme aberta, pronta para engolir todos os feitos.
Pequeno, ainda, em pé na mesa da sala, naquela casa de taipa, respondendo perguntas tolas de tolas visitas de meu pai:
- E isso aqui, hein...? De quem é....?
- Das muié bunita;
E todos riam, riam, riam...
Seria engraçado?
Talvez fosse.

“MERECES O CASTIGO DESTA ETERNA NOITE,
TOLO ENTRE OS TOLOS!
POR QUÊ ESCOLHESTE
O CAMINHO POR ONDE NÃO
SABES E NÃO PODES
CAMINHAR”...

A luz criou o drama. De um lado ela, que tudo tinha para ser esperança, fé, carinho.
Do outro lado, ele, que tudo tinha para ser miséria, repugnância, nojo. Ele, em silêncio, esperava. Ela, que deveria ser a esperança, transformou-se, no segundo diabólico do riso, naquilo que era: desespero. De onde devia vir a mão que o tiraria do lodo do espírito, veio o chicote. E ele que já odiava o próprio drama, não podia morrer. Mas queria.
E foi então que, continuando vivo, ele morreu.

ALMAS EM AGONIA

- Alguma coisa deve ter acontecido comigo. Estou vazia... E, afinal, você tem a sua casa...
- Mas e o amor, as dificuldades passadas juntos, as tantas alegrias?
- Não sei.
- E os sonhos...? Onde foram...?
- Cansei, acho de sonhar. Meu amor inteiro foi para meu filho.
- Se tudo terminou, que faremos?
- O menino fica comigo e você não vai ver mais. Tem de prometer.
- Prá onde?
- Pra casa de mamãe. Ela quer que eu volte. Tem de ser assim. Nós sabemos disso.
- É, sabemos.

“POR QUÊ SENDO ESTE MUNDO OBRA DIVINA DAS MÃOS DE DEUS SAÍDA, A HUMANIDADE SOFRE TANTO? POR QUÊ EXISTE A SAUDADE? POR QUÊ EXISTE A GUERRA QUE EXTERMINA, QUE ARRASA, QUE DEGRADA, QUE ALUCINA; E ATIRA NA MISÉRIA E NA ORFANDADE A CRIANÇA INOCENTE? E ESSA MALDADE QUE AVASSALA, QUE IMPERA, QUE DOMINA ...
POR QUÊ? POR QUÊ SE PARTE AO MEIO A VIDA DE UM JOVEM? POR QUÊ EXISTE A PARTIDA? POR QUÊ É QUE PERDE A FÉ O HOMEM QUE CRÊ? POR QUÊ HÁ ROMANCES QUE O DESTINO TECE E COM CUIDADO E ZELO ANIMA, PORQUÊ”?
(De quem seria isto...? E importa, agora? Tem tanta coisa na minha cabeça que não sei onde fui buscar...!) ”.
Muitos outros atos vieram, idênticos, mais sofridos, mais graves, mais loucos. Ela, com razão absoluta em sua determinação. Ele, no desespero total, sabendo não mais amado, não amando mais. Mas não foi assim que ele sonhou. Não foi assim. Não sabia, no entanto, que assim, eternamente dividido, sofrido, desesperado e quase enlouquecido, não era mais possível viver. Desistir do primeiro lar, o pensamento o pensamento que vem e encontra a barreira, intransponível barreira do sentimento sufocado, do vazio da alma dela, da agonia da alma dele, das dúvidas e da insegurança. O que fazer, perguntava a Deus. Procurou o seu deus no céu, na terra, nos semblantes todos... e nada encontrou. Estava só. Irremediavelmente, só. Com medo da solidão que já se apoderara de todas as suas horas. Alguém, alguma força teria de ajudar. Não suportava mais não ser amado. Não querendo perder nenhuma, segurava, por todos os meios, com todas as forças e artimanhas, a vida que procurou e que, aos poucos, ia desaparecendo em ambas as casas. Chorava. Não adiantava. Não aliviava.
- Onde estás, Deus...? Onde? Perdido de mim, perdido de todos, Deus não vê, não ouve? No auge do desespero, passou a tratar mal todo o mundo. E foi perdendo empregos. Tinha que chegar a uma conclusão. E depressa. Ficaria louco, de uma hora para a outra.
E Deus nada diz e nada mostra. As lágrimas continuam vindo. Tem que analisar esse antagonismo da razão e do sentimento. A correria tem que acabar. Livrar-se-á do peso – custe o que custar – daquilo que a sociedade chama de culpa. A culpa de ter amado errado. Ter errado com a razão e acertado com o coração, com o sentimento, sei lá o termo...
- Mas sou fraco. Deus não veio.
Ninguém veio, além do inferno das incertezas vivas e palpáveis. Implorei até para que tudo voltasse ao que era antes, mas só em pensar naqueles que sofriam privações devido a isso, a alma se contorcia. O inferno em sua mente...? Claro! Esperança, ainda, na alma. Mas as portas se fecham.... As vozes desconhecidas a dizer coisas desconexas, que não ajudam. De onde virão essas vozes? Do céu? Do inferno?
- Por que aconteceu assim, você pergunta? Talvez você o saiba. Uma angústia de séculos morando dentro de mim... Heróis e crápulas vivendo dentro de mim... em todas as minhas vidas anteriores, lutando pela supremacia total. A compreensão dos milhares de faltas acumuladas no correr dos séculos. Não sabia o que procurava. Um dia, ela apareceu. Sofrida, como eu. Sozinha, intimamente só, como eu. Um mês, amigos, simplesmente. Dois meses, confidentes. Depois, amantes. Dois anos após, pais. Onze meses depois, desesperados, porque a vida foi matando os sonhos sonhados. Além da criança, nada mais realizado. Sofreu comigo. Desesperou-se comigo. Levantou-me muitas vezes, compreendendo as minhas dificuldades. Foi mulher. Total. Mas mulher sem futuro algum, mulher prisioneira dos meus ciúmes e das minhas incompreensões. Até que ela disse:
- É o fim...? E eu sabia, juro, que sabia. Tinha de ser.
- Não sei mais o que pensar. Terei que ser digno, pelo menos uma vez na vida.
- Trata-se de compreendermos, apenas, que assim não é possível. Quando faltam as coisas aqui, é porque você levou pra lá. Quando falta lá, é porque você as trouxe.- Então é hora de parar de sonhar. Mas como parar de sonhar? Como esquecer? Como guardar segredo? Os dias iam engolindo as horas. O tempo, dividido.
- A criança vai comigo.
- Não. Determinismo tolo. Um homem não age assim. Alguma coisa precisa acontecer. Como? Se o segredo continuar segredo ainda não foi homem integral. O segredo deve desaparecer. Todos têm o direito de saber que ele existe, para evitar problemas no futuro. É homem integral, quem carrega escondido no coração um segredo dessa natureza? Contar...? Lutar. Ferindo, ferindo sempre, os dias continuaram a leva-lo a caminho da loucura total.
- Cheguei à conclusão de que você não poderá levar a criança. Ela tem de ficar num local onde tenhamos as mesmas possibilidades de vê-la e guiar os seus passos.
- Mas por quê? Tudo estava certo... você já tinha concordado...
Já era questão de amor próprio. Vingança, talvez. Seu íntimo se revoltava, quando se cientificava de que tudo havia ruído. Voltar atrás...? O lar primeiro? Mas ele ainda existe...? A encruzilhada da vida, com milhares de setas indicativas que nada indicavam. Qual deveria ser seguida? Aquela que marca o retorno pelo mesmo caminho? Mas esse é longo demais e fará lembrar e sofrer outra vez. As forças talvez faltem...

PARECE QUE FOI ONTEM

- Seria melhor arrumarmos, pelo menos por enquanto, um quarto pra você morar. Esconder a gravidez dessa forma não vai ser possível por mais tempo...os sonhos eram demais. Um castelo de areia estava se formando. Mas foi bom, correndo, subir todos os dias, aquela escada que rangia. Era até bom o cheiro de mofo... Lá dentro do quarto – com cadeado na porta – a forma de tudo. Numa só peça a cozinha, o quarto, a sala... Banheiro coletivo no corredor. Um dia ela descobriu que a cama emprestada pela dona da pensão tinha bicho. Percevejos antigos, na antiga cama de campanha. A dona da pensão era gorda e feia.
- Eu vim receber os oitenta contos do aluguel. Já está muito atrasado.
Ele não tinha. No outro dia:
- Meu bem... paguei o aluguel. Fiz um vale no emprego.
Como era bom aquele patrão! Será que ela tem alguma coisa com ele...? Começou cedo o ciúme. Doentio ciúme, que um dia o mataria, sufocando o amor.
- Meu bem... não tem açúcar. O café está amargo.
- Mas por que você não disse antes? Assim eu não teria comprado outra coisa. E agora, o que faço com esta merda?
Você pode estar matando o amor e não sabe. E ele não sabia que estava morrendo. Os dias passam céleres.
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- Papai, o beliche não vem? Não dá mais prá dormir na mesma cama. E lá tem bicho que morde...
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- Meu bem... precisamos comprar aquele quarto, prá devolver a cama. A dona da pensão já pediu.
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- Papai, olha estas bolotas aqui. São os bichos...
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- Meu bem... precisamos dar um jeito de pagar a prestação do fogão a gás.
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- ... E o aluguel? ... já estamos atrasados cinco meses. Assim não pode continuar. Onde está indo todo o dinheiro? E as crianças precisam do beliche.
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- Meu bem, arrumei a quitinete. Só duzentos e quarenta por mês. Mas é lindo
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- Papai, a mamãe disse que com o dinheiro que ela ganhar nos perfumes da Avon ela vai comprar o beliche. Só que não tem avalista...
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- Meu bem... vamos comer naquele restaurante novo...?
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- Papai... a tia assinou. O beliche vem amanhã...
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- Meu bem... se você acha que o apartamento é pequeno e sua mão não pode morar aqui, eu arrumo uma casa maior. Aí, fica tudo certo.
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- Não sei, não. Acho que ela não vai querer. Ela não gosta de você...
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A que ponto chega o desvario? Dinheiro não existe. Nada mais existe. Só o tempo a tudo engolindo. Mas prá quê estabelecer a comparação? Sofrer mais? O que vale estabelecer paralelos, incongruências, loucuras e desleixos? Culpas existem? Claro! O sentimento venceu a luta com a razão. Quanto mais o tempo passar, pior será. Mas, intimamente, quem terá força para romper laços tão apertados? A graça acabou. As crianças desaprenderam de sorrir. No berço permanecerá a marca da cadeirada louca.... Na alma permanecerá o seu sorriso, quando acordou.

VINTE E TRÊS E TRINTA

Na sua vida, agora, vinte três e trinta. A garoa. No bolso, o registro de nascimento da criança. Na alma, a incerteza do que se faria agora e no dia seguinte.
- Vou embora, disse em prantos.
- Fica mais um pouco. Não sei o que pensar.
- Nós dois estamos vazios. Sem ódio, sem amizade, sem amor, sem destino, sem vontades.... Por quê?
- Não sei.
- Está garoando e eu vou a pé.
- Por quê?
- Pensar. Estourar. Chorar. Sorrir. Sofrer... não sei.
- Você volta...?
- Não.
Com as mãos trêmulas em seus cabelos curtos, maltratados, diz a custo:
- Pena que não haverá o “talvez, um dia...”
Sua imagem ficou lá atrás, na escada onde juntos estavam. Ali, a encruzilhada. Alguém que ficou precisa desse retorno; essa mãe-menina precisa de paz e de outro amor qualquer dia.
O menino precisa de carinho efetivo, constante, e ele precisa ser homem pelo menos uma vez na vida, mesmo que seja pela última vez. Sua mente, um burburinho de atos e fatos incompreensíveis. A garoa, a noite e ele...
- Adeus, presente e futuro... Passado, espere um pouco mais. Eu estou voltando! Você, passado, ainda será o mesmo? Você está esperando eu voltar... eu vou indo sem saber o que vai acontecer. No céu nenhuma cintilação de estrelas conhecidas. Só a garoa, minha companheira, quando minha vida marca meia-noite... Alguém me segue. O fantasma da morte, talvez... O espectro faminto de almas vencendo a corrida... Noite, és cúmplice dos acontecimentos e choras, como eu? Por quê choras, se estou voltando porque quero voltar...? Por quê choras, noite, se este é o único caminho de quem não pode mais deixar de lado suas obrigações? Não chores, noite. Vês? Eu parei de chorar. Sou, apenas. Um fantasma antigo do jovem que fui. Tu te lembras...? A bruma não era, para mim, densa nem impenetrável... Estou perto de casa, noite. É hora de dizer adeus. O que vai acontecer depois de que contar tudo, não sei se, um dia, poderei contar prá você. Afinal, fomos amigos e posso chamar de você. As madrugadas dos bailes, das boates, não mais existirão. Afinal, noite amiga, outros virão depois de mim, prá serem também seus confidentes e amigos. As mulheres continuarão procurando almas irmãs, os desesperados, amorosos, ricos ou pobres. Eu, não mais, talvez. Guarde com você, noite, as coisas boas ou ruins, todas as cenas enfim, das quais fui protagonista. Quando eu sair, na hora em que você estiver por aí, faz que não me conhece. Não que não ame você, noite amiga, mas porque será melhor assim.
..........
- Trouxe outra revista pra darmos ao nosso novo vizinho...
- Hum-hum
..........
Meia noite. Não é hora de mostrar o registro. Ela está sempre com sono...
- Você leu a reportagem sobre as crianças na revista nova...?
- Não. Deixa eu dormir.
- Deixo.
..........
O sol já veio. Uma mulher chora, ao lado da cama. Abre os olhos, já sabendo que chegara à encruzilhada final.
- Este registro... é verdade...?
- É verdade.
O drama. Formado o espetáculo, cujos personagens, reunidos, extasiados pelo tema, gaguejam no texto que não foi ensaiado. A vida teceu a trama. O céu desaba.
- Por quê foi acontecer isso...? Eu já desconfiava!
- Eu sempre disse, minha filha, que ele não prestava.
- Tava na cara !
- Não chore, mãe...
- Como, não chora?
- Tua prima já tinha visto os dois de braço na rua Quinze...
- De braço...?
- De braço! E rindo!
- E eu, palhaça, aqui passando fome! Sem nada dever! Cuidando das crianças, sendo honesta, sendo a mãe o pai delas todas...
- E você não diz nada?
- Digo, apenas, que voltei. Quero ficar aqui. Eu quero ser pai das minhas crianças outra vez.
- Só isso, não basta.
- Eu sei. A única coisa que precisa ser analisada é que, graças a uma força desconhecida, eu tomei uma resolução. Estou contando, publicamente, o maior segredo: a existência do meu filho.
- É um bastardo nojento!
- É meu filho.
- É um filho da puta. Quem tem um filho com homem casado é puta!
- Está enganada. Não é.
- Olha aí, mãe! Olha aí, tia! Ele ainda nega. Eu e as crianças passando necessidades e ele tirando dinheiro pra sustentar outra casa, sustentando uma vagabunda!
- Eu sempre disse, minha filha, que não era possível o dinheiro não dar pra nada!
..........
Como pode existir uma coisa que não podemos ver? Nem sentir? Mas existe, porque ele o sente. De onde veio essa coragem ? De onde veio essa certeza, para enfrentar a tudo e a todos como está acontecendo? De onde veio a paz, inadmissível até, em circunstâncias assim? Existe um contato silencioso, insondável pela razão, provando que o poder maior não é o que aparece. Onde estamos que não vemos? Onde estamos que não entendemos?
“ O centro das coisas está em todas as partes, a circunferência em nenhuma”.
Retrocede de espanto, sem se aniquilar. No momento em que pede força, a tem. E, enquanto acreditar, enquanto não desfalecer, essa força não o abandonará, enquanto não responder a todos os por quês...
- Eu sei tudo o que vocês podem falar a mais. Por saber disso, por ter tido consciência desses fatos, é que estou voltando. Humildemente, voltando. E quero que me ouçam, pelo amor de Deus. O drama em contar tudo reside nisto: ao renunciar a tudo e voltar não sei se faço exatamente o certo. O advogado disse que a única solução seria trazer o menino para cá. Ao mesmo tempo, eu sei, será desumano tirar a criança da mãe.
- Não sou só eu que moro aqui. Suas filhas terão que decidir. Eu não quero esse bastardo aqui... Filha: você aceita um outro filho do seu pai aqui...?
- Não.
- E um irmão nascido aqui em casa, você aceitaria...?
- Não.
A discussão. O seu silêncio. A sogra “curtindo um ódio antigo”. A mulher sem saber como foi traída tão miseravelmente. Ele não conta o porquê. Um dia, tudo será esclarecido. Mesmo que seja tarde demais. Se escrever demais, a dor será maior. Não façamos nosso personagem sofrer ainda mais. Um fôlego só, para o restante. As estórias nunca terminam e ele nem sabe se aguentará até o final do capítulo.
- Meu tempo é pouco, muito pouco. Não posso ficar contando em detalhes tudo aquilo que você quer e precisa saber. Naquela mesma manhã...

AS ROSAS EXISTEM...?

- Onde a vida me levou? Para quem, agora, os restos de sonhos? Os olhos vermelhos, para quem olhar e ver a dor e a alma – assustada – a tremer ...? Para quem as rosas...? As rosas existem! As rosas existem, sim! Existem, as rosas! Para quem a garoa daquelas vinte e três e trinta da noite final? Quem consertará o berço quebrado? Quem plantará as flores? Quem fará eu parar de chorar por dentro e sorrir outra vez? Quem passará a mão onde a bofetada pública replicou uma verdade que ela, ferida por ter sido traída, acertou com força a resposta pedida?
- Quer dizer, então, que esta vagabunda é melhor?
- Não entendi.
- Quer dizer que esta vagabunda que tem mais qualidades do que eu?
- Bem, dentro dessa análise, tem.
Sim. Frente a frente, para que ela tivesse a certeza da verdade, da renúncia total, para voltar outra vez a viver. A outra, impassível. O vexame final, no meio da rua do bairro pobre, no pobre final da rua sem vida. Cada um com a alma em frangalhos.
- Esta é minha mulher. Você já a conhecia. Estou aqui pra que você fique tranquila, com respeito ao menino. Pra que você viva sem medo de que, no futuro, eu possa, ainda, lutar pela posse da criança. É a renúncia total. A primeira renúncia. Deus queira que não forcem outras renúncias e que entendam esta resolução. No momento oportuno você dirá a ele. Quando ele entender.
..........
As histórias não têm final. É a sequência dos atos que vão sendo escritos não sabemos como, mas com presteza. Nós, os atores improvisados, sem ler o nosso papel, sem ensaios, vamos levando aos circunstantes, ao grande teatro da vida, a nossa arte em improvisar. Sorrimos e choramos sem querer e sem saber porque, nem quando. Quem somos, na ordem das coisas...?
- Foi necessário, digo a você, amigo. Foi necessário. Aguardemos a chegada da noite, neste possível crepúsculo de sonho ou alvorada de vida. Meu filho dormiu? Meu filho morreu? Não sei. Sei que outros vivem e me esperam. Ali, o meu Norte. Quebrei a bússola que continha outras direções. Ali, o remédio. E eu não vou ler na bula as contraindicações. É necessário chegar cedo para o almoço. Afinal, é o primeiro dia do retorno. Não quero pensar no que me foi dito logo pela manhã. Seu amor próprio ferido ainda não conseguiu desvendar o mistério que envolve todas as vidas, todos os atos, todas as ações do homem. O golpe recebido quase forçou o sentimento a suplantar a razão, mais uma vez
As quatro paredes daquele quarto guardarão, para sempre, as palavras proferidas, pra que Deus não ouça o seu eco e ninguém venha a contar.
-Você terá que pagar essa traição na carne do seu próprio filho. Se Deus for justo haverá de castigá-lo. Se ele for justo, seu filho haverá de ficar todo torto. E você sofrerá com ele.
Deus não ouve. As quatro paredes guardarão o eco. Tem que sair, para voltar.

“A cidade já acordou em seu bojo enorme.
Os segredos da noite, a cidade guardará”.

Não vai contar nada e nada vai dizer a ninguém dos segredos que ouviu, viu e previu. “Nos palácios ou nas favelas, o sol será o mesmo. As lâmpadas artificiais já se apagaram, como tantos e tantos sufocados sonhos... As quatro paredes da cidade grande, que já deixou de ser a Província de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, guardarão todos os segredos de cada um. A grande cidade está acordada. Eu acordei ontem. A grande cidade guarda os segredos; eu, ontem, contei os meus segredos. A cidade grande tem sol; eu, hoje, procuro o sol.” A grande cidade, acordou. E “em seu bojo enorme, segredos guarda, segredos de palácio e de mansarda”. Já tem sol. As lâmpadas artificiais não mais iluminam figuras esquivas chegando ou saindo. A grande cidade segredos guarda, disse o poeta maior do que eu e que hoje, já se foi para outras paragens... esconde sonhos e segredos a grande cidade...

“Adivinhá-los, quem há-de”.

DE OLHOS ENXUTOS

Foi difícil, na hora do almoço, comer sozinho. Ainda bem que chamou a filha mais velha para ler a revista ali, ao seu lado.
- A SUA comida está pronta, disse a sobra, “curtindo o ódio antigo”.
Ao largar a Bíblia sobre a mesa da sala e dirigir-se à cozinha, não sabia que continuava sozinho. Mas ele escolheu o que achou melhor. Então, o melhor é assim. Ouve a voz da menina chamando, logo ao sair. Volta-se. Momento de aflição.
- Papai, disse ela de olhos enxutos – posso pedir uma coisa pra você...?
- Claro, filhinha. O papai responde a qualquer pergunta e fará tudo pra atender você.
- Não faça mais a mamãe chorar...
- E chorou.
- O papai não vai mais fazer a mamãe chorar.
E, dali, saiu chorando.

JÁ ESCURECEU DEMAIS

A noite não sorri. Ele não voltará atrás. Que lembranças deixará? Vinte e três e trinta, para o resto da vida. Que lembranças ficarão? As boas? As más? Não importa. Somente importaria, se voltasse atrás. Que apoio deixará? Do quê? dele, se lembrarão...?
“DIGA-O ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS...?
Dizem os que partem e também descobrem que não vão voltar.
Ou melhor seria dizer: não podem voltar. Eu precisava, antes de sair, ter deixado um presente ou uma palavra.
Devia ter confessado o quanto gostei, ou gosto de alguém, o quanto alguém me faz, fez ou poderá fazer feliz ....
Será que deixei afeto suficiente, esperança ou um pouquinho de coragem?
No meu ombro, alguém haverá de chorar, pelo menos, uma vez ...?
Tenho pensado muito em vocês ... lembrar-me-ei de dizer, quando voltar de todo?
Não sabia que, um dia esquecido do passado inteiro, ou bem dentro dele – totalmente revivido - retornaria inteiro e até acrescido, pela porta que eu transpus confiante um dia. Se eu não conseguir, fica este escrito, como ponto de partida para quem quiser seguir tranquilo e deixando-me tranquilo também, onde quer que eu vá.
..........
- Doutor... Ele se salva...?
- Tem oitenta por cento de probabilidades...
.........
INÍCIO DE TUDO...?
Ainda não se sabe. Tarde quente de Cascavel. A família toda em está em casa. Aliás pelo que sabia, ninguém tinha saído. Parece, até, que aguardava algum fato novo, alguma coisa nova, enfim, qualquer coisa que pairava no ar. A tarde já estava velha naquele dia de muito sol. Ora pra lá, ora pra cá, como boi sonso esperando a janta. Na rua, poucos carros passavam; no entanto deu para notar um carro estranho que passou umas três vezes por ali. Pessoas estranhas olhavam a residência. Seriam ladrões... oficial de justiça... parentes... sabe-se lá...! O certo é que passavam e tornavam a passar. Um deles desce do carro e dirige-se ao portão. Vai ao seu encontro. Onde será que já viu esse rapaz...? Que é familiar, isto não lhe resta a menor dúvida. Alguma coisa mexeu dentro dele. Alguma coisa mexe com o seu íntimo, revirando, buscando aquela expressão de jovem conhecido, alguém cuja aparência não era nova, mas perdida no tempo e no espaço.
- Boa tarde...
Sua voz tremeu ou foi impressão...?
- Boa tarde, responde um tanto quanto ressabiado. O rapaz prossegue como se não tivesse escutado o cumprimento.
- Nossa história começou há vinte e seis anos atrás, em Curitiba. Eu sou seu filho. Há muito tempo começou a procura. De início, e isso faz pouco tempo, não sabia se queria ou não o encontrar. Acho que era mais curiosidade do que uma necessidade. Afinal, muitos anos se passaram ...
Dava a impressão de um texto longamente ensaiado para aquela oportunidade, surgida após pesquisa nos Cartórios eleitorais, emissoras de rádio, jornais, a fim de encontrar o endereço. E vieram as lembranças, boas e más lembranças... Nasceu de um amor surgido nesses intervalos que a vida nos oferece e que pela falta de estrutura, de convivência, chega-se ao acerto final, porque nada é definitivo, coerente, humano até, pode-se dizer. Mas tudo isso foi dito anteriormente. O que interessa, agora, é a nova página da história pouco conhecida, pouco relembrada, porque machuca, esfacela a alma. Uma lágrima teimava em cair, enquanto chamava a família toda para conhecê-lo.
- Gente... olha quem chegou!
E foi uma festa só, porque todos só falavam nele e procuravam um meio de encontrá-lo, querendo conhecê-lo... conviver com ele. Mas a promessa antiga não podia ser esquecida. Afinal, havia jurado. No adeus definitivo, isso ficou definido: para o bem do menino, haveria o compromisso de nunca procurá-lo:
- Você nunca mais vai vê-lo... você tem que jurar... para nós dois, é como se ele não existisse. Ele só tem um aninho, vai ser fácil pensar que o pai morreu, ou que desapareceu no mundo... jura! Jura!
- Juro!
Parecia-nos que tudo houvesse transcorrido normalmente, mas com muita emoção. Seus irmãos encheram-lhe de perguntas, uma atrás da outra, ele respondendo- muitas vezes com evasivas- mas respondendo. Depois as outras irmãs, já em datas posteriores, em Curitiba, com a mesma sofreguidão, entulhavam a cabeça do rapaz, já aturdido, meio apavorado, com a fome perdida naquele restaurante, o Imperatriz, onde o encontro foi marcado. Lá pelas tantas, desabafa:
- É uma loucura pra minha cabeça... Até bem pouco tempo, me sentia sozinho, com apenas uma irmã mais nova e, agora, tenho um monte de parentes? O sentimento das pessoas é bastante interessante, incompreensível, fechado dentro da alma, dentro do tempo, que a nossa filosofia não alcança. Ele, pensa:
- Sou muito pequeno, para entender, confesso. Quando achava que este capítulo da vida pudesse amainar o que o tempo teimou em não engolir, que ele tivesse a intenção de se inserir numa etapa diferente da vida até então vivida, perdoando, até, o esquecimento pela vida obrigado a existir, desaparece da vida de todos nós. Nem um telefonema, nem uma carta, nada. Novamente o caos, novamente a mesma coisa, a mesma espera, o vazio na alma de um, sem a vivência tão esperada durante vinte e seis anos. Algum telefonema, de pouca valia, aconteceram. Mas era um tom seco, de desconhecido. Não viajava mais, não telefonava mais, não mais apareceu. Matou a curiosidade e, para ele, apenas isso bastava. Haverá algum novo capítulo...? Nenhum, talvez. Não se tem mais tempo.
Só vem à mente do nosso personagem, um resto de poema, talvez de Laurindo Rabelo (ou de Antônio das Chagas - 1631/1682):

Deus pede estrita conta de meu tempo
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem-tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta.
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Vós que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis o vosso tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! Se os que contam com o seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta
Não chorariam como eu o não ter tempo.

Tempo... conta.... conta... tempo...
Indefinidamente, até quando...?
..........
Início de tudo...?
(FIM)
?

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